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sábado, dezembro 20, 2003

.UM POUCO DE LOCURA:


Num conto de Stanislav Lem, especula-se sobre se a informação terá uma massa crítica como o Urânio. Em determinadas concentrações poderia ser uma espécie de armadilha para as civilizações do cosmos. A energia converte-se em massa e vice-versa e a informação talvez fosse um terceiro elemento desta equação. Partindo do pressuposto da realidade desta especulação mesmo que por breves minutos, questiono-me sobre se caso Deus exista, não teria há muito ultrapassado a massa crítica de informação, uma vez que ele conteria toda a informação do universo ou universos concentrada e organizada qual titânico computador. No entanto não observámos ainda a reacção em cadeia desencadeada por tal evento ou observámos ? Será que Deus não pode existir porque existe um limite de crescimento da informação a que ele próprio teria de se submeter ? Ou será que o Big Bang é como que uma contagem decrescente divina pois na explosão inicial já estava contida toda a informação hoje presente no universo ?

Costumo sentir muitas vezes piedade em relação às outras pessoas, mas compreendo que é apenas um reflexo da piedade que sinto por mim. Uma tendência para achar que os outros sofrem exactamente com as mesmas coisas e da mesma forma que eu. É assim como a tendência que os homens têm para antropomorfizar os comportamentos dos animais atribuindo-lhes significado humano e dando-lhes nomes de sentimentos.

segunda-feira, novembro 17, 2003

Lendo A ilha dos Pinguins de Anatole France (1844-1924), mais um escritor caído no esquecimento e que até foi prémio Nobel, verifico como o livro é actual, como é uma bela e inteligente alegoria sobre a História do Homem e da França em particular, mas recheada dum humor e dum sarcasmo certeiros que em alguns aspectos bem se poderão aplicar a uma certa hipocrisia política e de valores do Portugal dos nossos dias. Talvez volte ao assunto.

domingo, novembro 16, 2003

Conversa de café, ontem à tarde: " Enquanto a RTP e TVI celebram missas ao domingo, a SIC há anos que ao meio-dia de domingo celebra a natureza o que é bem mais importante." Gostei do comentário, mas claro que sendo ateu sou suspeito...

quinta-feira, novembro 13, 2003

Mais uma entrada na Enciclopédia galáctica




O Mundo da Espiral




O mundo da espiral tornou-se numa civilização esplendorosa em menos de um milhão de anos. Habitado por uma espécie dominante que se caracterizava por uma longa e única perna impulsora de salto e por um conjunto de quatro tentáculos manipulares que partiam de um pequeno corpo provido de um cérebro altamente desenvolvido e de três olhos que permitiam uma visão num ângulo de quase 300º, esta espécie desenvolveu a partir do momento que começou a sua infância tecnológica uma misteriosa (em termos humanos comparável a uma religiosa) adoração pela forma espiral. A espiral simbolizava para eles a economia de energia e espaço e observavam-na como um padrão universal, nos redemoinhos dos mares e das nuvens, mais tarde descobriram-na nas superfícies de outros planetas e nas galáxias que os seus telescópios desvendavam.
Havia para eles algo de misterioso e de certa forma sagrado na forma da espiral. Esse padrão começou a surgir na sua arte, depois nas suas obras de engenharia, cidades, máquinas e naves espaciais. Onde quer que fosse adaptável a espiral, ela surgia sob as mais variadas formas e dimensões.
Quando atingiram um nível de tecnologia que lhes permitia controlar a meteorologia à sua vontade, dominar o poder do átomo extraindo-lhe quantidades de energia quase ilimitadas, manipular o genoma e criar próteses genéticas que adaptavam os seus corpos às condições dos planetas que iam lentamente colonizando (Civilização tipo I, na classificação de Kardashev), resolveram construir uma cidade do tamanho do maior continente do planeta que se ?afundava? numa inevitável e côncava espiral como uma gigantesca concha dos mares da Terra. Mais tarde "secaram" o interior ainda em fusão do seu mundo e criaram uma superestrutura que abarcava todo continente e que funcionava como cidade, como laboratório de física e sobretudo como símbolo da espécie pois a espiral era visível de muito longe no espaço torneada por permanentes torrentes de plasma quente e branco.
Luas e asteróides eram desmembrados e minerados para que houvesse metais suficientes para construir estas cidades-continentes onde viviam mais de trinta biliões de seres. As zonas de vegetação que providenciavam desde sempre o ar que eles respiravam foram concentradas em sistemas fechados e recicláveis de dimensões gigantescas que rodeavam uma espécie de circulo exterior a grande espiral. Gigantescas faixas verdes envolvidas em milhões de quilómetros quadrados de plástico eram também elas a distâncias estelares o sinal inequívoco de uma inteligência naquele planeta.
Aos poucos o mundo da espiral foi-se expandindo para as estrelas mais próximas, colonizando os planetas mais próximos, estrela após estrela em grandes naves-espiral, titânicas conchas de propulsão atómica que levavam anos a transportar milhares de habitantes em cada viagem. O processo de colonização foi lento prolongando-se através de dezenas de milhares de anos, mas abrangeu pelo menos as mil estrelas mais próximas.
Quando esses escassos milhares de habitantes chegavam a um novo mundo começavam lentamente a transformá-lo e quando atingiam a casa do bilião, com a ajuda das suas poderosas máquinas já poderia ser vista do espaço uma enorme cidade-espiral, réplica quase idêntica à do mundo original. Talvez tivessem saudades do mundo deixado para trás, talvez simplesmente quisessem cunhar o novo planeta com a marca do império, mas a verdade é que ainda hoje podemos ver mais de dois mil mundos cravados com a marca da espiral neste sector da galáxia.
Atingiram a dada altura o domínio da universal nanotecnologia, o que lhes permitiu reconverter os mundos colonizados em novas estruturas, modificar os seus próprios corpos ainda mortais à sua vontade e tornarem-se deuses à maneira dos outros ?povos civilizados? da galáxia. Segundo os registos mais recentes das actividades destes mundos, esta civilização desapareceu há cerca de cem milhões de anos, ainda os dinossauros caminhavam e dominavam o nosso mundo.



domingo, novembro 02, 2003

O patriota





Gostava de vos contar a história de Manuel Viana Serafim de Almeida, exemplo de perseverança e de desinteressada dedicação à pátria, personalidade dum carácter impoluto de homem de Estado, possuidor duma das mentes mais brilhantes ao serviço de Portugal e de que me orgulho de ser amigo. Conheci-o, vai para vinte anos, na faculdade de direito de Lisboa, quando juntos nas bancadas do grande anfiteatro, ouvíamos com entusiasmo as estimulantes aulas de Economia Política e de Introdução ao estudo do Direito dos nossos mestres ilustres. Eu daqui mesmo de Lisboa, sem grandes dificuldades para enfrentar que não as do próprio estudo, vivendo no quente e confortável seio da casa paterna, a alguns quarteirões da faculdade; ele vindo de Braga, separado da família, a viver na solidão do T4 de telheiras que os pais lhe haviam oferecido e com todo um mundo novo de adversidade para enfrentar. Contudo, para melhor poder narrar este nobre percurso de vida devo regressar a Braga, ao final dos anos trinta do século passado e ao seu avô, Afonso Martins da Purificação Viana.
O avô de Manuel, antigo aprendiz de tipografo, homem temente a Deus, anti-republicano até ao tutano e Miguelista empedernido, juntando os tostões de uma vida, abrira então por essa época, uma tipografia em Braga que os pais do Manuel em poucos anos conseguiram transformar num pequeno império editorial dedicado sobretudo a livros jurídicos e de teologia. Abençoadas pelo Arcebispo de Braga nos idos de cinquenta, as rotativas giravam e imprimiam hoje para livrarias e universidades de todo o país.
Filho único nascido do casamento entre D. Maria da Purificação Viana, filha do avô tipógrafo e o Dr. António Serafim de Almeida, na época jovem advogado de província, modesto na fortuna mas ambicioso nos seu ensejo de casamento, o pequeno Manuel foi desde sempre um aluno irrepreensível, metódico e disciplinado. O petiz embora tivesse dificuldades com a aritmética, sobretudo no que respeitava à dificultosa operação de divisão, era duma persistência que impressionava os mestres que por essa razão lhe desculpavam as deficiências. Era todavia muito bom conhecedor da genealogia dos reis de Portugal, sendo que cognomes e datas não falhava nenhuma e eram admiráveis as suas pequenas redacções, onde profetizando-se já as marcantes intervenções deste futuro parlamentar, louvava as virtudes da pátria e de Cristo sempre muito tomadas como exemplo para os colegas pelo director do colégio, o senhor Padre Vicente de Menezes.
Logo nos primeiros tempos do liceu demonstrou uma grande capacidade de liderança, era sempre eleito delegado de turma, embora em abono da verdade devamos dizer que era o único disposto a tal empreendimento, mostrando dessa forma quão precoce foi a sua estóica capacidade de carregar o pesado fardo da responsabilidade. A seu tempo revelou-se um dos grandes dirigentes académicos desta nação, e apesar de nascido em Maio de sessenta e oito nunca cedeu ao facilitismo, afastado-se permanentemente de manifestações estudantis e outras agitações revanchistas, sempre se pautando pelo respeito pela ordem e pela autoridade.
Cedo decidiu que devia seguir os estudos de direito como seu pai, pois era o curso que melhor lhe permitiria servir a grei e aproveitava assim também para subtrair-se às dificuldades da matemática e da física, ciências demasiado abstractas para o seu espírito nobre mas objectivo. Além disso era uma oportunidade para explorar os seus dons inatos de orador, e a sua bela voz de barítono, que já ouvia a ecoar cheia de flamante retórica pelas salas de tribunal e pelas galerias do Parlamento. Os pais orgulhosos de seu menino incentivavam-lhe o sonho e complementavam-lhe os estudos gerais com cursos de Inglês, Francês e Piano, que bem ficaria exibindo o seu virtuosismo nos salões. Alguns anos de estudo desse magnífico instrumento granjear-lhe-iam, segundo ele próprio me narrou, muitos elogios vindos de mestres e leigos. Quanto a mim confesso que apenas o ouvi tocar muitos anos mais tarde o minuete em Sol de Bach, que era uma das suas especialidades e não consegui reconhecer a peça, que pensei tratar-se de alguma obra contemporânea, de Berg ou Schönberg, mas a realidade é que sempre fui destituído do menor vestígio de musicalidade e por isso incapaz de descobrir a genialidade daquela inovadora interpretação do velho compositor alemão. Entretanto, o que constitui um mistério para mim, os pais de Manuel cessaram as suas lições de piano e substituíram-nas por um curso de Latim, língua morta, contudo tão necessária no exercício de eruditas verbosidades. É verdade que quando entrou na faculdade, época de alguns protestos e greves, se sentiu um pouco confuso com uma nota que anunciava ter sido a greve geral de alunos adiada Sine die. Confessou-me então, embaraçado que conhecia a expressão mas não recordava naquele momento o que significava. Mas é também verdade que nunca confundiu um ex tunc com um ex nunc, um ad valorem com um ad voluntatem e muito menos um debitum conjugale com um delirium tremens. E como gostava de, indicador em riste, aureolado por aquela autoridade moral que só ele podia invocar, invectivar os seus adversários com um veemente alea jacta est. Claro que esses adversários, carecidos da sua profundidade de pensamento, nunca entendiam o propósito da expressão. Manuel Serafim de Almeida no parlamento sentíamos que era vox populi, vox Dei.
Quanto ao seu percurso académico na faculdade de direito, não podemos dizer que tenha sido um aluno que obtivesse altas classificações, mas também não o poderia ser, tendo em conta as suas inúmeras actividades políticas no Partido Renovador Cristão em que ingressara ainda antes de entrar para a faculdade. Ainda assim lembro um dezasseis a Medicina legal que muito o orgulhou, é certo que essa cadeira injustamente não contava para a média final do curso e o exame era do tipo ?teste americano?, mas ainda assim podia ver-se facilmente que ali havia talento.
Chegado ao quinto e último ano do curso, altura apropriada para encontrar uma esposa digna deste futuro mártir da causa pública, Manuel começou a cortejar a nossa colega Catarina Vasconcelos e Sá e em breve ela seria o seu único e grande amor. O namoro resultaria em casamento imediatamente após a conclusão do tirocínio de advocacia que Manuel faria numa das mais conceituadas sociedades de advogados de Lisboa enquanto Catarina, com enorme espírito de dedicação ao casamento e aos sagrados valores da família, abandonaria a carreira que não chegara a iniciar e organizava o futuro ninho do casal. Orientado pelo famoso e experiente Dr. Bernardo de Morais Oliveira, correligionário dos Renovadores Cristãos e especialista em Direito comercial, e grande perito em off-shores, Manuel começava a desembaraçar-se nos labirintos legais e judiciais de forma exemplar. Recordo ainda as alegações finais por ele feitas e a que assisti, no seu primeiro processo criminal oficioso na Boa Hora. Não esquecerei nunca a dignidade com que proferiu essas curtas mas apaixonadas e persuasivas alegações: ?Senhores Doutores Juizes, peço justiça para o meu constituinte !? Nem esquecerei igualmente as caras de assombro do colectivo que certamente nunca havia ouvido tamanha voz, impondo-se ela, quase como se fosse a voz da própria justiça, a reverberar naquelas monásticas paredes de antigo convento.
Quando chegou ao final do seu tirocínio, Manuel teve de fazer uma das mais difíceis opções da sua vida e abandonou a sua tão promissora carreira como causídico para se poder consagrar a tempo inteiro ao partido e à coisa pública. Com grande sacrifício pessoal e financeiro e com uma coragem que ainda hoje me comove, decidiu candidatar-se a um lugar no parlamento como deputado do PRC pelo círculo de Braga. Apoiado nesta grave decisão pelos seus pais, vendeu a sua casa de telheiras e comprou uma velha casa no bairro alto, lugar menos suburbano e mais em consonância com o cargo que em breve, se as eleições corressem de feição, iria ocupar. Catarina ocupava-se de dirigir o restauro da casa enquanto os pais de Manuel financiavam a operação e faziam igualmente um depósito bancário de cinquenta mil contos com que o meu amigo teria de se governar, com grandes sacrifícios, até poder subsistir do seu salário de deputado. Como um verdadeiro cristão que era, renunciava a fazer uma fortuna, coisa mais que certa levando em conta o seu grande talento de jurista, para poder servir desinteressadamente o seu país. Claro que o pai de Catarina colaboraria também para o arrimo do casal e da numerosa prole vindoura, mas pouco poderia fazer com a sua modesta remuneração de administrador de empresa pública.
Entretanto acabadas finalmente as obras e os restauros, pôde celebrar-se o casamento, que constituiu um dos eventos mais elegantes e memoráveis a que Braga assistiu, reunindo mais de quinhentos convidados e tendo sido celebrado, como não poderia deixar de ser, pelos ritos da Santa Madre Igreja, na Sé e pela pessoa do próprio Arcebispo.
A casa de Lisboa, esperava-os, essa casa que tantas vezes visitei, uma casa a cheirar a respeitabilidade burguesa, que é como quem diz entre o cheiro dos soalhos de madeira encerada e do breeze de alfazema. Era um prazer vermos os silhares azulejares pombalinos e os anjos de estuque que povoavam aqueles celestiais tectos, os aparadores oferecendo à vista uma ou outra Companhia das Índias comprada nos antiquários da D. Pedro V e as lombadas da biblioteca carregadas de empoeirados cartapácios de direito, de literatura política como o Diplomacy de Kessinger, o Democracy in America de Alexis de Tocqueville, O fim da História de Fukuyama, textos de Wolfwitz e outros neo-conservadores americanos que eu lhe havia ofertado e ainda de literatura religiosa, como A Igreja e o pensamento contemporâneo do Cardeal Cerejeira, colecções de textos de Josemaría Escrivá de Balaguer e claro, a Bíblia Sagrada.
As eleições aproximavam-se e com elas crescia o justificado nervosismo de Manuel, pois os Renovadores Cristãos não costumavam eleger muitos deputados e ele estava naquela zona que eu denominaria de cinzenta, entre os elegíveis e os não elegíveis e onde tudo poderia depender dos ventos da sorte. Mas como disse antes, este era um homem determinado a fazer sacrifícios financeiros mas também pessoais, mesmo que à custa da própria saúde. E tanto foi de facto o sofrimento infligido a esta abnegada vítima da causa pública, que quando foi eleito, à tangente, como sexto deputado pelo PRC, ao invés de se apresentar ao lado do líder do partido nas clássicas primeiras declarações à comunicação social na sede Renovadora, estava fechado nos lavabos sofrendo gravíssima crise de desarranjo intestinal, crise que o deixou sob cuidados médicos durante alguns dias.
No primeiro dia da legislatura, momento de glória em que não me furtei a ir cumprimentá-lo, pude confirmar outra das suas características peculiares e a que ainda não tinha feito referência, a sua elegância. O Manuel compensava a pouca altura, creio que não chegaria ao metro e sessenta, e a calvície precoce com um gosto refinado. Possuía um toque de distinção, de chique, para escolher as suas roupas e nesse ditoso dia tinha-se esmerado. Envergava um belo casaco azul escuro assertoado acompanhado de calças da mesma cor, ambos feitos por medida num dos melhores alfaiates de Lisboa, uma camisa branca coroada por uma garbosa gravata cinzenta de seda italiana, um lenço a fazer conjunto e algo que para o meu amigo era indispensável, um par de sapatos pretos sem a mácula de um único grão de poeira e de fina qualidade de fabrico. Ele costumava mesmo dizer, numa frase tão sua e cheia de espírito ?que se ficasse na miséria de um dia para o outro, sem dinheiro sequer para comer, poderia prescindir das roupas dos bons alfaiates e das boas etiquetas mas nunca do seu par de sapatos de marca italiana?. Eu imaginava o meu pobre amigo de roupas remendadas e coçadas, sorvendo uma canja na ?sopa dos pobres? mas ofuscando todos com o brilho dos seus sapatos italianos bem engraxados e ria-me com esta inteligência viva, este requintado espírito que nunca cedia ao abatimento e ao clássico sentimento da fraca auto-estima nacional. Claro que como facilmente se pode compreender esta airosidade suscitava muitas invejas, sobretudo por parte dos adversários partidários, implacáveis, que aos mais ínvios métodos recorriam para preencher o seu vazio de ideias políticas. Resultado, logo se ouviram comentários sarcásticos sugerindo que todos os militantes do PRC se vestiam de modo igual, envergando uma espécie de uniforme, como que nos antípodas das fardas da China Maoísta. A maldade e a intriga pululam nos corredores da política e do poder e Manuel abominando a arenga política começava a descobrir isso logo na sua estreia parlamentar.
Manuel Serafim de Almeida mostrou-se logo de início um dos elementos mais participativos do hemiciclo de São Bento, e recordo o desvanecimento de amigo que sentia, quando através da televisão observava o vigor dos seus protestos contra as atoardas duma oposição infame, manifestados em violentas pancadas, tão próprias da sua natureza recta e viril, desferidas no nobre mogno da bancada, ou através da sua voz, e que voz, repleta de pundonor com que bradava um ?muito bem, muito bem !? num apoio entusiástico e inequívoco aos seus colegas de partido. A injustiça não tinha cabimento nem na sua vida nem no seu vocabulário moral e como tal nunca a tolerava, tendo sido dos parlamentares que desde as Cortes Constitucionais de 1821 mais vezes teve o denodo e a frontalidade de invocar a defesa da honra, quer própria quer da bancada. Receando a palavra certeira e acutilante de Manuel, quase nunca lhe autorizavam essa defesa da honra com paupérrimos argumentos como os que objectavam que nem ele nem nenhum dos deputados do PRC teriam estado presentes durante a discussão em causa e muito menos teria havido qualquer referência feita a eles durante essa mesma discussão, ou ainda os que objectavam que ?a troca de ?Sr. deputado Manuel Serafim de Almeida? por ?Sr. deputado Manuel Querubim de Almeida? não constituía em si um ataque à sua honra pessoal até porque nem sequer representava essa confusão, para ele, uma despromoção na hierarquia angélica celeste?. Como calculam a gargalhada foi geral e ficou registada nos anais da Assembleia, mas não seria este episódio que faria esmorecer a tenacidade de Manuel. Homem mormente do campo da acção intelectual e da palavra, era contudo dotado de enorme coragem moral e física e não tolerando a mais pequena tentativa de humilhação, no exterior do hemiciclo interpelou, barrando-lhe o caminho, o presidente da mesa, responsável pelo gracejo de mau gosto e exigindo-lhe que se retractasse publicamente perante toda a câmara. Foi um prazer observar como se impôs perante o outro, um bom palmo maior do que ele, e o desfecho que teve este célebre episódio. Ninguém ouviu ao certo as palavras que trocaram, a única coisa que se viu foi o presidente da Assembleia dirigir humildemente algumas palavras a Manuel, sem dúvida apresentando as mais genuínas e sentidas desculpas, e este, logo de seguida, dar-lhe passagem numa atitude muito nobre que pareceu demonstrar toda a sua visão cristã do mundo, de perdão, de cedência da outra face. Muita elevação encontrei neste gesto que para todos nós deveria servir de modelo.
No que respeita à sua actividade técnica no parlamento, e evocando de novo o poeta da nação, apenas duas palavras: engenho e arte. Infelizmente talvez vítima, agora, da inveja dos mais próximos, ou seja dos seus próprios correligionários, Manuel viu coarctadas importantes propostas legislativas que planeadas e delineadas com tanto suor e horas de trabalho, revolucionariam para sempre o rude, dessacralizado e atrasado panorama jurídico do nosso país. Era o próprio PRC que sabotava essas iniciativas notáveis, como aquela em que propunha a penalização do aborto em todos os casos, após a primeira semana de gravidez, ressalvando contudo as situações de aborto expontâneo, tendo desde logo avançado a direcção política do partido com o frágil argumento da impossibilidade científica de se detectar uma gravidez tão precocemente. A outras relevantes iniciativas em que desenvolveu a ideia do fim da necessidade do empregador justificar o despedimento, a par da abolição da progressividade dos impostos, como patrióticas medidas para incentivar a produtividade e retirar o país do pântano, o partido reagiu não permitindo que o projecto avançasse para o parlamento, com a vaga justificação de que tais propostas eram inconstitucionais. Começou este homem a sentir-se demasiado constrangido para apresentar as suas ideias mesmo no seio do próprio partido, desperdiçando-se dessa forma, maravilhosas e indispensáveis renovações no quadro jurídico português, como seriam a restauração da pena de morte, que reasseguraria o valor da segurança, tão em decadência nos últimos anos, ou a adopção da religião católica como religião oficial do Estado com a consequente celebração duma nova concordata com a Santa Sé.
Decorria a legislatura já com algum desespero por parte do Manuel, quando se dá uma reviravolta inesperada, cai o desastroso e laicizante governo de centro esquerda e são antecipadas as eleições. Nos corredores é o caos e a agitação, há que preparar as hostes e formar governos-sombras, e o PRC não é excepção, porque as hipóteses do partido caído em desgraça voltar a ser governo são escassas, significando tal uma porta aberta para a oposição de direita, mesmo que através do recurso a coligações. O partido renovador era um pequeno partido, com poucos militantes de base e ?barões? ainda em menor quantidade, facto que agitava e fazia entrar em ebulição a mente de Manuel, que começava a acreditar que poderia ser ministreável. Será que podia finalmente aspirar a servir a pátria condignamente num cargo onde seria possível mudar o estado de coisas a que tinha chegado o país, confessava-me Manuel ? Questiono-me de olhos rasos de comoção quando imagino em quantos políticos na história constitucional portuguesa terá havido este género de despojamento ?
A sorte estava felizmente do lado de Manuel e um mês e pouco depois, estava na sede a abrir o champanhe para comemorar a vitória da coligação governativa entre o PRC e o Partido Nacional Social, que sem maioria absoluta e não querendo governar com a esquerda, não teve alternativa senão optar pelos Renovadores Cristãos.
De madrugada, em casa, no recesso do lar, o meu amigo comemorou em família com a sua casta esposa, Catarina, e creio que nessa abençoada e ditosa madrugada, dealbar de um novo Portugal, terá sido feito o seu primeiro filho. Seria apenas o primeiro de doze, porque esta boa família, como imaginam, seguia os santos preceitos da Igreja Católica Romana e deplorava qualquer forma de contracepção, onanismo ou coitus interruptus, apenas aceitando os métodos naturais, como a abstinência total ou a contagem dos prazos do ciclo fértil. Aliás, aqui estaria uma boa matéria para como governante legislar, banindo de vez com esses verdadeiros umbrais escancarados à promiscuidade, que eram a venda da pílula contraceptiva e do preservativo. No entanto a sua pasta não seria a da saúde ou do planeamento familiar.
O histórico telefonema chegou pelas dez horas da manhã, Manuel Viana era ministro. Ele e mais três elementos da direcção do PRC iriam ficar à frente de ministérios estratégicos. Ao Manuel coubera a Educação. Agora era arregaçar as mangas e colocar mãos à obra; erradicar a anacrónica visão marxista da disciplina de História, desinfestar a imundície maçónica que perpassava por todo o sistema educativo, proclamar a obrigatoriedade da disciplina de educação moral e religiosa, e se possível retornar à velha e pedagógica ?menina dos cinco olhos? que tão proveitosos resultados tinha obtido no passado.
Mas ao fim de duas semanas após a tomada de posse do governo e de árduo trabalho por parte de Manuel Viana para reformar o sistema educativo, eis que se revela a abjecta aleivosia que motivou a minha presente narrativa e me fez trazer até vós a denúncia de toda esta vergonhosa conspiração. Um pasquim infame, de nome ?O clarividente?, faz, com recurso à intriga e à mentira mais despudorada, cair o meu amigo em desgraça, lançando sobre ele infundadas suspeitas de nepotismo. Acusava o pasquinário, Manuel Viana de tentar beneficiar-se com o seu anteprojecto de lei em que previa a obrigatoriedade da disciplina de moral e religião para todos os alunos que não pertencessem a confissões distintas da católica. Além de criticarem de per se a louvável intenção de eliminar o gérmen do ateísmo da nossa nação, referiam-se à medida complementar que Manuel propunha, de o Estado comprar uma ou mais bíblias para todos os estabelecimentos do ensino oficial, como uma tentativa de beneficiar com essa proposta a empresa dos pais que afinal imprimia quase todas as edições católicas da bíblia em Portugal. Apesar das averiguações do ministério público não terem confirmado esta acusação, a realidade é que Manuel teve de se submeter à opinião pública e pedir a demissão, arruinando-se por este meio a vida de um homem que tudo deu à pátria e uma tão promissora carreira pública.
Em jeito de epílogo, devo dizer-vos que Manuel Viana Serafim de Almeida regressou, acompanhado de Catarina, grávida do seu primeiro descendente, a Braga onde começou a trabalhar com os pais na administração da editora, e também, onde aliás teve estrondoso sucesso, na divisão de empacotamento de livros. De ministro a tipografo, assim, injustamente e sem glória, o enjeitou a pátria a quem deu tudo o que tinha, a quem serviu com toda a dedicação. Sic transit gloria mundi.

quinta-feira, outubro 30, 2003

Quantos de nós sabemos que os Estados Unidos quando se tornaram oficialmente uma nação estiveram em dúvida quanto à língua oficial a ser adoptada ? O grego perdeu para o inglês por dois votos, mas ainda hoje
nos resta o tão americano e largamente internacionalizad O.K. que é na verdade uma expressão grega - Ola Kala - que significa "tudo vai bem". Aprendi esta com o Sentados na Relva do Fernando Namora, assim como
ele parece ter aprendido com um grego que participou com ele num congresso de escritores em Laht perto de Helsínquia.

terça-feira, outubro 28, 2003

Hoje apetece-me iniciar aqui a publicação duma enciclopédia, a enciclopédia galáctica da mainha imaginação...



ENCICLOPÉDIA GALÁCTICA


I

Introdução à História Galáctica



Ano 32 622 da nova era e mais 10 746 anos terrestres depois da era Cristã ( a origem da designação tornou-se obscura embora se saiba que estava ligada a uma corrente de pensamento filosófica chamada mística ou religiosa ) :
Nos milhares de anos de história e exploração da galáxia, os registos do aparecimento de civilizações tecnológicas são surpreendentemente escassos, na verdade inexistentes, fazendo-nos hoje crer que por cada ilhota galáctica do nosso universo não haverá mais que uma dezena de civilizações que tenha vingado. Não sabemos os números relativos ao universo com precisão, pois por ora, cingimo-nos aos limites da nossa Via-láctea, mas com o que aprendemos sobre a sua história cremos que podemos retirar uma lição aplicável ao resto do cosmos. Talvez a inteligência tenha despontado em muitos lugares e tenha por várias razões sido interrompida no seu curso por catástrofes, guerras ainda na fase primitiva do desenvolvimento científico dessas espécies, ou talvez outras razões que desconhecemos tenham inviabilizado o surgimento de novas civilizações, mas a verdade é que todos os registos históricos e exaustivos das nossas expedições arqueológicas revelaram o despontar de apenas onze civilizações, não obstante a colossal proliferação de formas de vida primitivas em quase todos os sistemas solares galácticos. A vida despontou mesmo em muitos lugares do universo sob as mais exóticas e inesperadas formas e morfologias. Foram encontradas pelos nossos levantamentos formas de vida baseadas em carbono, em silício, em diversas combinações de ADN ou recorrendo a outras arquitecturas ou maneiras de codificar informação como os cristais ou as placas protogénicas, mas tanto quanto nos foi dado ver, apenas onze vezes a consciência teve lugar no universo conhecido. Em onze lugares e tempos dispersos pela galáxia, surgiram culturas que se expandiram e que desapareceram deixando apenas os remotos vestígios da sua tecnologia. Umas vezes incríveis obras de engenharia, outras, bibliotecas estranhas e misteriosas, registando a sua História, manifestações artísticas e até por vezes algo de enigmático e incompreensível para os nossos pesquisadores, algo que talvez seja um modo próprio e estranho de algumas ancestrais entidades biológicas tentarem explicar a sua própria origem.
Poucas destas civilizações chegaram a ter contacto, ou porque viveram em épocas diferentes ou sobretudo porque se encontravam separadas por distancias quase sempre de dezenas de milhares de anos-luz. Algumas no entanto sabemos hoje que se "tocaram" nas extremidades das suas esferas de expansão. Tanto quanto se sabe esses encontros foram sempre pacíficos e deles resultaram sempre cooperação e troca de conhecimento, não havendo registo de qualquer tipo de conflito.
Todavia o desaparecimento dos criadores de algumas destas culturas continua um mistério, pois não deixaram qualquer explicação ou registo histórico que possa corroborar qualquer das teses que têm sido defendidas. Uns defendem que partiram para Andrómeda ou outras galáxias, o próximo passo lógico para este tipo de civilizações avançadas, outros defendem que em colaboração com outras inteligências desconhecidas, talvez tenham abandonado o nosso próprio universo. Um universo que cada vez mais se suspeita seja um universo entre muitos, uma fracção dum vasto ou mesmo infinito Multiverso. A escassez de vestígios não é contudo prova de coisa alguma, apenas da nossa ignorância, a ignorância da pobre e jovem (apenas milenar) ciência terrestre que hoje sabemos ser das mais modestas da História do universo consciente.
Mas passemos agora à enumeração dos poucos mundos que geraram alguma forma de consciência ou de inteligência, manifestados em vestígios civilizacionais e tecnológicos na nossa galáxia.




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